Censura, falta de diálogo e gerações confusas

 Nasci na metade dos anos 80, portanto, passei boa parte da minha infância nos anos 90 e minha adolescência entre o final destes e o início da era 2000. Quase sempre tivemos TV e rádio em casa e acesso a revistas e jornais, assim como a diversos produtos comercializados para massas nessas épocas. Logo, cresci cercada de propagandas e produtos da mídia dos mais diversos tipos.

Lembro-me de curtir muito programas como “Xou da Xuxa”, a Mara Maravilha, a Angélica – que tinha um programa bacanérrimo na extinta TV Manchete –, cigarrinhos de chocolate – quem aí se lembra do menino negro na embalagem vermelha? –, “Carrossel”, brincar de casinha. Mais tarde, adorava novelas mexicanas, os Backstreet Boys, livros da Agatha Christie, histórias de amor, ler sobre sexo – quem não curtia entender como a coisa funcionaria? – e rock. Hoje, apesar dos altos e baixos durante o mês – não me toque se eu estiver na TPM 😛 –, sou uma mulher de quase 31 anos feliz e com a sensação de ter passado tranquilamente pelas fases da vida até agora, sem aquela sensação de que “será que aquilo era nocivo pra mim e eu nunca deveria ter experimentado?”.
 Por que estou contando tudo isso aqui? Para exemplificar que uma pessoa pode descobrir o mundo, ter contato com inúmeras coisas e influências e não ser influenciada por elas eternamente. Não saí por aí dando “beijinho, beijinho, tchau, tchau” por causa da Xuxa; nem virei fumante por comer cigarrinhos de chocolate – aliás, não posso nem sentir o cheiro de cigarro! – ; não arrumei pencas de filhos nem virei Amélia por brincar de casinha; não me tornei serial killer por ler Agatha Christie e não tive montanhas de parceiros sexuais por ler sobre sexo.
 Isso aconteceu porque sou uma pessoa sortuda? Porque sou mesmo incomum? Não, caros colegas: foi assim porque quem convivia comigo – e a sociedade em geral naquelas épocas – não procurava pelo em ovo me censurando e se abstendo de me explicar a razão dessa censura.
 Tive uma família que me criou com a consciência de que eu era uma cidadã do mundo e que, portanto, deveria aprender a viver nele, respeitando a mim mesma e os outros. Desenvolvi meu senso de “certo e errado”, opiniões e consciência de que eu – e eu apenas – sou responsável por minhas decisões e pelo impacto que elas causem. Essa “mágica” ocorre, justamente, quando permitem que alguém tenha contato com o mundo, aprenda o bom e o ruim e por que isso é bom ou ruim. Devem ser criados cidadãos do mundo e não pessoas que sejam propriedade de suas famílias.
 A questão não é expor indiscriminadamente crianças a coisas e cenários terríveis, mas sim, que elas devem saber que tais coisas existem antes de estas lhe serem negadas. Quando a censura acontece, é necessário esclarecer o motivo; do contrário, apenas se desperta o desejo do ser humano sobre conhecer aquilo que é “proibido”. Educar e conversar dá trabalho? Ok, mas é o que deve ser feito. Não ensino para meus alunos conteúdos e regras sem explicar para que servem e, da mesma maneira, famílias não devem dizer que “não pode” sem explicar a razão.
Vivemos o momento da informação e da facilidade de acesso a diversas ferramentas de conhecimento, mas parece que nunca as pessoas foram tão retrógradas e desinteligentes. E nunca perderam tanto tempo patrulhando o “certo” e o “errado” ao invés de esclarecê-lo educando gerações sobre o mundo.
 É necessário trabalhar a consciência moral de cada um e a nossa também, todos os dias, o que só é possível quando temos contato com o mundo para aprender a viver, quando o descobrimos e discernimos sobre as coisas.
 Tudo tem dois ou inúmeros lados. Mas, para escolher o(s) seu(s), é necessário conhecer todos.
 Por Luciana Campos.

 

 

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