É, Jen: todas estamos fartas.

Lembro-me de quando aprendi o que eram ciclos em uma aula de Ciências no Ensino Fundamental. Tudo “vai e volta”, seguindo relações cíclicas que causam transformações nos elementos desse ciclo. E é isso o mais importante: a água que evapora e volta em forma de chuva, as folhas perdidas das árvores ou cada botão de rosa tem suas singularidades, embora pertencentes a ciclos que se repetem.
É frustrante saber, na contramão, que o animal racional da natureza – ou que ao menos deveria sê-lo – passa por ciclos e muitas vezes não se transforma de maneira completa. Alguns não mudam e são a mesma pessoa a vida inteira, cometendo os mesmos erros, julgamentos e repetindo os discursos de eras atrás. Há o aceitável e o inaceitável no que se refere a aparência, estado civil, emprego, comportamento, família, sexo, carreira; se você não se encaixa no aceitável, torna-se um pária e será sempre perseguido por ser “diferente”.

Homens e mulheres sofrem todas essas pressões sociais ao longo da vida quando decidem resistir ao padrão; as mulheres, por inúmeros fatores, parecem ser o grupo mais massacrado, nascendo já com os papéis a desempenhar marcados na testa. Devemos ser graciosas, educadas, prendadas, delicadas; agradáveis e submissas porque “do contrário não nos casaremos”; com formas corporais harmônicas pelo mesmo motivo; amorosas com crianças porque devemos ter filhos; formadas em algum curso superior, mas com empregos que não nos exijam tanto para que possamos cuidar da família; acostumadas a ganhar menos que homens em nossa posição porque, “há algumas décadas, a mulher sequer podia trabalhar como um homem – Veja aonde já chegamos!”.
Tudo o que é imposto à mulher é visto como regra. As que não se encaixam em tais regras são “rebeldes sem causa”, “mal agradecidas”, “desrespeitam a ordem natural das coisas”, “negam o papel que Deus lhes deu” e por aí vai a coisa. Sempre digo que Deus me deu inteligência para escolher o que quero pra mim; então, que papel estou desrespeitando quando não quero ter filhos ou me casar, por exemplo? Quantas mulheres se sentem obrigadas a fazer tudo o que lhes é imposto porque “é assim que deve ser”? Há patrulhas o tempo todo fiscalizando o que fazemos, comemos, falamos, usamos e com quem estamos – ou não – e isso, além de absurdo, é cruel. E mais cruel ainda é essa patrulha ser feita, muitas vezes, pelas próprias mulheres. Porque, sim, encaixar-se nos padrões se você é feliz está ótimo, mas criticar as que não se encaixam é inconcebível.
O “farta” que Jennifer Aniston disse estar recentemente em nota dirigida aos que insistem em patrulhar-lhe o corpo e forçá-la a ter filhos é compartilhado por mim e por milhares de mulheres ao redor do mundo. Como é possível que, estando em 2016, ainda haja pensamentos e padrões sociais “aceitáveis” que não se transformam no ciclo vital desde muito antes de minhas bisavós nascerem? Como é aceitável mulheres diminuindo outras pelas escolhas delas serem diferentes? Por que um corpo deve ser sempre preferido aos outros? Por que a escolha de não ser mãe ou esposa, ou mesmo ser solteira incomoda tantos e permite que nos julguem “menos mulheres”?
Jen, eu e muitas estamos fartas da imposição desses padrões. E, acreditem ou não, somos felizes com nossas escolhas “inaceitáveis”. Mas… e você, que julga e que está padronizado: é feliz com as suas? Ou o verdadeiro motivo de seu incômodo é que nós, “rebeldes” parecemos ser mais felizes que você?

 Por Luciana Campos.

 

 

 

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