Conversa de espelho

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Eu tinha uns 8 anos quando descobri que era diferente da maioria das garotas da minha idade. Não estou falando de personalidade e gostos no geral, porque com relação a isso eu sempre soube que era “do contra”; falo de aparência física. Um dos meninos da minha classe me chamou de gorda e eu, meio surpresa com aquela palavra, comecei a olhar em volta e vi que era mesmo enorme perto das menininhas magrelas que estudavam ali. Levei um tempo para processar essa novidade dentro de mim e é impressionante como seu cérebro é capaz de aumentar as coisas e criar monstros interiores.

Continuei crescendo e sendo a gorda perto das garotas. O que não me incomodava nem atrapalhava na infância começou a ficar complicado a partir daquela idade em que muita garota quer parecer mais velha e começa a se interessar mesmo pelos meninos. Passei pelo pior ano da minha vida quando entrei na 8ª série, em 2000, nos meses em que pessoas infinitamente sem noção se achavam no direito de discriminar alguém que não bebia, não frequentava as festinhas, não ficava com pelo menos três por noite e, o mais importante, não era tão bonita ou desejável para andar com eles – e para alguém querer namorar.
O Ensino Médio veio e passou bem mais tranquilo, vieram os anos universitários e os de Mestrado. Cresci, amadureci, fui trabalhar, conheci muita gente diferente, vivi uma infinidade de coisas e sensações boas e outras não tão boas. Nesse meio tempo, a garota que se descobriu gorda aos 8 engordou mais, emagreceu muito, engordou de novo um pouco e hoje já sabe o quanto quer pesar no mínimo e no máximo. E não, isso não tem a ver com padrões, mas sim, com suas experiências e o olhar cada vez menos crítico com que olha para a mulher que a encara no espelho.

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(Não se esqueça de se apaixonar por você mesma primeiro).
O mais incrível dessa historia toda é que ainda me acho diferente, mas o fato de não ser magra para os padrões ou “igual à maioria” não incomoda como há muitos anos. Porque um dia entendi que não existe maioria. Olhe a sua volta agora: quantas mulheres diferentes em todos os aspectos, mas, principalmente, na aparência, você enxerga? Nem mesmo magros são iguais! Então, por que ser diferente tem que ser um problema?
Não serei hipócrita e direi que foi só terminar o colégio e meus monstros interiores se foram. Não: eles me perseguiram durante mais uma década depois disso, mesmo quando – talvez alguns fiquem perplexos com essa declaração – eu estava na versão mais magra que jamais havia sido. Não adiantou emagrecer mais de 30 quilos, eu ainda não me achava linda “como as outras”. Mas adiantou amadurecer para entender que eu sempre fui linda, independente do peso, do tamanho da roupa, do estado do cabelo, da cor do batom – embora me AME mais de vermelho 😛 . Eu já era linda quando descobri que era gorda. Quando entendi tudo isso? Ao beirar os 30, depois da última crise existencial feia que tive, aos 28. E ao encarar o espelho, despida, dizendo a mim mesma que ela, a mulher do reflexo, tinha – e tem – as mesmas chances de qualquer outra, em todos os âmbitos.

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Ser a melhor versão de mim mesma é o que realmente me importa. Continuar aprendendo, conhecendo gente, lutando com meus ainda existentes monstros – que já são poucos e mínimos -, mas, sempre, sentindo-me gata, de verdade. É libertador e emocionante encarar meu reflexo com isso em mente, e não é papo de livro de autoajuda, é algo verdadeiro dito por alguém com experiência em se menosprezar.
A todas as mulheres incríveis que conheço, àquelas que ainda vou conhecer e às que, espero, possam ler este texto, um conselho: levantem de onde estiverem e se olhem no espelho mais próximo com calma, sem críticas ou julgamentos – e olhem que quem pede isso é uma virginiana! 😛 . E, por favor, entendam o quanto vocês são lindas. Ou, pelo menos, considerem começar a entender isso. Um dia vocês acordarão com a sensação maravilhosa de que a mulher mais linda e perfeita que tanto ansiaram por ser sempre esteve do outro lado, naquele reflexo. E nunca mais, a partir daí, deixarão de acreditar nisso.

Por Luciana Campos.

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